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Mostrando postagens de 2018

Qual foi sua primeira Fake News?

Já não tem sido difícil esbarrar no termo Fake News há algum tempo. E muito disso é devido às redes sociais, WhatsApp e brincadeiras de quem depois de uma cerveja já tenta imitar os discursos do presidente Donald Trump. A popularização dessas duas palavras, oito letrinhas e de replicação instantânea, no entanto, ainda carrega alguma penumbra de obscurantismo. Como um fenômeno digno da cultura pop norte-americana, o termo Fake News alastrou-se rapidamente durante as eleições presidenciais de 2016. Usado diversas vezes pelo lado Republicano e Democrata no pleito, a ideia era taxar notícias de jornais e discursos de opositores como algo falso, mentiroso. Porém, apesar da alta popularidade cibernética, tudo indica que a expressão já existe desde 1890 — de acordo com o dicionário Merriam-Webster, o termo foi novidade lá no século 19.        No Brasil a toada também não foi muito diferente. Dois anos após a vitória do homem aficionado por muros, a eleição presidencial...

Anônimos: Cultura também é descoberta

“Teve uma época da minha vida em que eu comecei a trabalhar com artesanato e fui embora para Ilha Grande, fiquei em Paraty um tempo. Tive um contato com a cultura popular muito forte. Fui para o Recife, conhecer o Maracatu, as Cirandas, o Frevo; fui para o Ceará, conhecer o Coco de Roda, a Caninha Verde. No fim, tudo isso me virou uma chavezinha, e pô, eu sou parnaibano, aqui tem o Samba de Bumbo, que é o samba rural, uma manifestação popular que eu já participava desde que nasci. Estava indo tão longe buscar alguma coisa que está aqui... E no fim, voltei com a gana de estudar melhor a minha raiz, o meu chão. Voltei para cá no intuito de preservar a história preta e a indígena que, infelizmente, foram apagadas de uma forma que a gente nem sabe de onde começar a falar, mas a memória negra ainda está resistindo. Eu penso em deixar essa memória viva, a única vontade minha é que isso não acabe.” Santana de Parnaíba, 24 de novembro de 2018

Avó, uma mãe

“Avó”, de acordo com o dicionário da Língua Portuguesa, é um substantivo feminino que refere-se à mãe do pai ou da genitora de alguma pessoa. A definição, no entanto, não é nem um pouco alongada; está lá, com três letras e um acento, na primeira seção alfabética do espesso livro, mas de uma maneira bem sintética, seca e direta. Pela maneira simplória com que trata o termo, é bem provável que o dicionário jamais tenha tido uma avó para ser chamada de sua. As minhas lembranças e definições de “avó” são bem pouco literais quando preciso descrevê-las. Desde quando morava nos rincões da Bahia, bem pequeno e nos tempos em que gostava de usar chapéu de palha, já consigo resgatar memórias das primeiras vezes em que me deparei com o conceito dessa palavra de três letras. Na verdade, ainda iletrado e antes de frequentar a escola, nem mesmo “conceito” era um termo que eu seria capaz de entender. A compreensão de “avó” vinha de algo maior, intangível, mas com representações linguísticas também ...

Banco de horas

Já estava na casa dos trinta anos e costumava acordar cedo e por livre e espontânea vontade aos domingos. Falava sempre que essa grande heresia era praticada para aproveitar mais o fim de semana, apesar das longas bocejadas entre os goles de café e os puxões de orelha dos amigos, que insistiam em refutar tamanho disparate da moça. Criada no campo por quase duas décadas, a menina já havia se acostumado a respeitar desde muito cedo as horas que o dia iria lhe dispor. Quando o assunto era horário, sua disciplina era realmente exemplar, algo de fazer inveja aos mais garbosos personagens ingleses dos filmes hollywoodianos. Sempre chegava aos lugares antes do horário marcado e se orgulhava disso, ainda mais nos compromissos profissionais da empresa em que trabalhava. Nas idas ao cartório, consultas médicas, entrega do carro na oficina, aulas de saxofone e o curso de inglês, nenhum atraso. Toda a rotina era programada principalmente para comportar o tempo de estudo para o teste que a...

Anônimos: Sonho também é arte

“Eu estudo Arquitetura, mas acho que isso é mais pra satisfazer a vontade dos meus pais. Gosto muito de Arquitetura, mas não é o que quero fazer para o resto da minha vida, não quero trabalhar pra satisfazer uma parte egocêntrica das pessoas. Sempre gostei muito de artes, mas escutei muito não, de empresas e de pessoas; me disseram que eu não conseguiria chegar onde eu queria. Hoje tenho um projeto, e ele é que me move; customizo roupas que são velhas, é algo que gosto muito. Sinto que estou exatamente onde eu deveria estar.” São Paulo, 29 de maio de 2018  

Anônimos: O (en)canto da música

“Nasci na Turquia, em Istambul. Cheguei quando criança no Brasil, em 1973. Voltei duas vezes lá, mas deixei de ir porque tive problemas judiciais. Hoje moro em Diadema, na periferia. A música me deu muita alegria, minha vida é a música. Meu pai era músico, eu sou músico, o amor vem de sangue. Já toquei em muitas bandas, quebrei galho até para Os Paralamas do Sucesso. Exponho meus discos há mais de 20 anos, de segunda a sexta. Tenho perspectivas que melhore o comércio, que melhorem as vendas, estão fracas ultimamente. Minha discografia gira em torno de 3.000 e 3.500 discos, mas vendo apenas os repetidos, só venderia algum outro se estivesse com a corda no pescoço." São Paulo, 11 de abril de 2018

Anônimos: Dor da saudade

“Meu sonho antes era casar e ter filhos. Hoje tenho duas filhas e três netinhos, mas não consigo ver eles porque estão na Baixada [Santista]. Perdi meu emprego e estou à procura de um novo, no momento estou morando na casa de um amigo meu, que me deixou ficar por lá. Também estou longe de minha mãe, que mora em Janaúba, Minas Gerais, e faz um tempo que não vou lá. Às vezes me dá até vontade de chorar quando me lembro dela. Se minha mãe estivesse me ouvindo agora, eu falaria que estou com muita saudade e não faria as coisas que já fiz antes. Eu faria tudo diferente.” São Paulo, 13 de março de 2018

Anônimos: Aprendizados

“Eu queria ser jogadora de futebol. Joguei dos cinco até os quinze anos. Fico triste porque não posso jogar mais, tenho problema no joelho. Mas sei que tudo o que acontece na vida é porque você tem que passar por aquilo, acredito que devemos levar em consideração que as coisas ruins vão passar. Com o tempo também fui crescendo, amadurecendo e vi que o futebol feminino aqui no Brasil não é algo que possa te sustentar. Hoje me sinto bem, estou no último ano da faculdade de Nutrição, penso inicialmente em ir para a área hospitalar, e quem sabe, no futuro, possa trabalhar com esporte. Minha vida tem sido um aprendizado e me sinto feliz de estar onde estou, podendo ajudar as pessoas.” São Paulo, 29 de janeiro de 2018

Anônimos: Aceitação

“O ano de 2016 foi um período complicado pra mim, foi quando eu fiz cursinho. Não me arrependo, acredito que foi um período no qual amadureci muito, mas foi difícil. Quando eu estava prestando vestibular, estava em dúvida entre Relações Internacionais na USP e Economia na Unicamp. Tinha estudado muito para a primeira fase da Unicamp, acredito que passaria. Mas meu pai esqueceu de pagar a inscrição. Fiquei muito mal, eu queria muito aquilo. No fim, acabou sendo bom, porque se ele tivesse pagado, e eu passasse, teria ido para lá e não teria conhecido as pessoas que conheci um tempo depois.  Estou encarando as coisas como um momento de aceitação. De me aceitar como eu sou, de entender como as outras pessoas são, de saber que não tem como eu controlar tudo e o tempo todo. Preciso aceitar que as coisas vão dar errado.” São Paulo, 15 de janeiro de 2018 * O projeto "Anônimos" tem como função dar voz àqueles que normalmente não seriam ouvidos...