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Pretérito imperfeito

Recostados os braços e qualquer resquício de altivez numa cadeira capenga de bar, ele bebia. Bebia bastante, enquanto pensava na briga que tivera com o irmão dias antes. Pensar no passado era o que ele mais fazia, na verdade. E não era por qualquer princípio poético ou tentativa imediata de remissão. Pensava no passado porque gostava. Era encantado pelos verbos no pretérito sem nem mesmo saber o que diabos significava pretérito. Mergulhava em lembranças porque era a única possibilidade de realmente sentir alguma coisa em sua integralidade, mesmo que o sentimento fosse a saudade dilacerante. Já que era impossível nutrir alguma paixão pelo porvir e nem mesmo havia como captar o tempo presente nas mãos — porque um milissegundo depois de pensar em algo tudo já vira passado —, agarrava o pretérito com a força que podia. Com os lábios mais soltos pela bebida, entoava o refrão da música no bar, sempre com um verso de atraso. Gostava dos tempos antigos em que ia à loteria e ganhava pelo menos ...
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Oi, tudo bem?

Ela surgiu de repente em meio a uma pequena multidão, de um jeito que só ela faz, e me pegou desprevenido. “Oi, tudo bem?” Foi a primeira coisa que ela tratou de me dizer, já que não sabia o peso daquela pergunta. A verdade é que não estava tudo bem, não. Há uma semana havia perdido minha avó, há cinco dias meu emprego tinha ido embora, e a reprovação na faculdade era questão de tempo. Junto a isso, também já tinha perdido a esperança de falar o que sentia. Um cara que a admirava tanto quanto eu havia contado a ela toda a sua paixão e agora ambos formavam um casal apaixonado no Instagram há mais de um mês. Quando a imagem dela se formou de vez em minha frente, com um sorriso aberto que me lembro até agora, a única coisa que eu tratei de fazer foi devolver o cumprimento e dizer que sim, estava tudo bem comigo. “E você?” — emendei esticando os lábios com o máximo esforço que conseguia. Ela não merecia saber de nada daquilo que me perturbava. Eu era quem precisava saber se ela, de fato, e...

Uma vitória libertadora

  As listas de “X coisas que você deve fazer antes de morrer” são fartas, especialmente em época de internet massificada e desejos etéreos de realmente tentar fazer um milhão de coisas antes de perecer. É como se pular de paraquedas no Himalaia enquanto joga sinuca no ar e faz meditação Raja Yoga fosse possível em uma só vida.  Seja pela impossibilidade de cumprir um zilhão dessas coisas — sem falar das inúmeras responsabilidades que a vida adulta cobra — ou até mesmo detestar algumas destas listas, nunca parei para pensar de verdade nas experiências que eu deveria experimentar antes de morrer. Talvez apenas algumas sensações eu já tenha refletido como seria. E nenhuma delas se compara a conhecer 101 países ou falar dezesseis línguas. Um de meus desejos era mais simples: ver o Palmeiras campeão da Libertadores. Tudo bem, talvez não fosse tão simples assim. Mas sempre foi algo viável. Viável talvez também não seja a melhor palavra para definir a esperança de ser campeão da Libe...

Asas são para voar

A mãe tinha orgulho da filha que havia criado. Gostava de dizer às amigas que sua menina era dona de asas, daquelas capazes de sobrevoar o mundo — uma retórica clichê de toda mãe que se preze, convenhamos. “Vai estudar em Londres por dois anos”, adiantava sempre que houvesse oportunidade e encontrasse alguém que ainda não soubesse. No dia da viagem da filha, partida que a mãe julgava breve, era possível agarrar as emoções no ar. A matriarca embargava a voz a cada quilômetro vencido até o aeroporto. O pai sentia o mesmo desconforto da esposa, porém, era mais contido. O peito queimava, e de tanto aperto, ele já não sabia mais se era emoção ou infarto. A voz seca que vinha dos alto-falantes foi clara: “embarque imediato para a cidade de Londres”. Mãe e filha então se abraçaram por um longo tempo, como a ocasião pedia. É muito menos doloroso quando nos despedimos de alguém e não sabemos que aquele abraço será o último. Além das asas que a mãe sempre falou que a filha tinha, a menina também...

Querido rodinho

O ser humano é capaz de encantar-se pelas mais diversas coisas. Copérnico, por volta do século 16, percebeu a beleza galáctica do sistema solar e desenvolveu a ideia conhecida atualmente como heliocentrismo. Machado de Assis, uns três séculos após o vislumbre de Copérnico, viu na relação humana — em especial no caráter dúbio do homo sapiens — o produto essencial para seus maravilhosos romances. E, mais recentemente, com um arcabouço de conhecimento coletivo bem mais sólido e boa noção da capacidade tecnológica, empreendedores do Vale do Silício transformam o encantamento que têm pelos bits em plataformas multimídia bilionárias. Eu, particularmente, também cultivo admirações distintas, das mais variadas áreas do conhecimento. Encontro na vastidão das estrelas um bom motivo para ficar olhando para o céu por alguns minutos, como um “tonto” — adjetivo utilizado por quem me advertiu. Acho beleza na voz de Johnny Cash, me delicio em meio às crônicas de Antonio Prata, encontro perspicá...

Liberdade

Pensei que liberdade fosse algo eterno O respiro durante uma caminhada Um aval para a expressão Ou até mesmo um abraço fraterno Sobre liberdade, tentaram refletir Platão disse que está aliada à moral Maquiavel que se associa à República Dicionários enxergam independência Eu nem sei se é algo que dê pra definir Sem escolher, a flor que nasceu, abriu O pássaro, sem caminho, começou voar O peixe, em águas profundas, a nadar Perante a tudo isso, liberdade Por que eu escolheria te encontrar?

Anônimos: As pazes com a música

" Quando eu tinha mais ou menos sete anos, meu pai comprou um teclado e pagava um professor particular para me dar aula. Só que esse professor trabalhava em outro emprego também, então ele só podia me dar aula de teclado por volta de 18h30. Só que seis e meia da tarde era justamente o horário que estava passando um desenho da época, e o professor chegava bem na hora desse programa. Aí eu ficava meio que torcendo para ele não ir. Eu acho que peguei uma associação negativa com o aprendizado da música por isso. Quando eu estava desenhando, por exemplo, eu achava divertido; mas a música, não. Parece que o professor chegava e cortava minha diversão. Fiquei afastado do treinamento da música muito tempo, acreditando que eu não tinha o dom para aquilo. Hoje resolvi me desafiar e neste segundo semestre estou tocando bastante; percebi que vai muito da dedicação da pessoa. Acredito que se o pessoal descobrisse que é mais dedicação do que dom, mais pessoas produziriam música. Hoje não ...