Recostados os braços e qualquer resquício de altivez numa cadeira capenga de bar, ele bebia. Bebia bastante, enquanto pensava na briga que tivera com o irmão dias antes. Pensar no passado era o que ele mais fazia, na verdade. E não era por qualquer princípio poético ou tentativa imediata de remissão. Pensava no passado porque gostava. Era encantado pelos verbos no pretérito sem nem mesmo saber o que diabos significava pretérito. Mergulhava em lembranças porque era a única possibilidade de realmente sentir alguma coisa em sua integralidade, mesmo que o sentimento fosse a saudade dilacerante. Já que era impossível nutrir alguma paixão pelo porvir e nem mesmo havia como captar o tempo presente nas mãos — porque um milissegundo depois de pensar em algo tudo já vira passado —, agarrava o pretérito com a força que podia. Com os lábios mais soltos pela bebida, entoava o refrão da música no bar, sempre com um verso de atraso. Gostava dos tempos antigos em que ia à loteria e ganhava pelo menos ...
Ela surgiu de repente em meio a uma pequena multidão, de um jeito que só ela faz, e me pegou desprevenido. “Oi, tudo bem?” Foi a primeira coisa que ela tratou de me dizer, já que não sabia o peso daquela pergunta. A verdade é que não estava tudo bem, não. Há uma semana havia perdido minha avó, há cinco dias meu emprego tinha ido embora, e a reprovação na faculdade era questão de tempo. Junto a isso, também já tinha perdido a esperança de falar o que sentia. Um cara que a admirava tanto quanto eu havia contado a ela toda a sua paixão e agora ambos formavam um casal apaixonado no Instagram há mais de um mês. Quando a imagem dela se formou de vez em minha frente, com um sorriso aberto que me lembro até agora, a única coisa que eu tratei de fazer foi devolver o cumprimento e dizer que sim, estava tudo bem comigo. “E você?” — emendei esticando os lábios com o máximo esforço que conseguia. Ela não merecia saber de nada daquilo que me perturbava. Eu era quem precisava saber se ela, de fato, e...