O ser humano é capaz de encantar-se pelas mais diversas coisas. Copérnico, por volta do século 16, percebeu a beleza galáctica do sistema solar e desenvolveu a ideia conhecida atualmente como heliocentrismo. Machado de Assis, uns três séculos após o vislumbre de Copérnico, viu na relação humana — em especial no caráter dúbio do homo sapiens — o produto essencial para seus maravilhosos romances. E, mais recentemente, com um arcabouço de conhecimento coletivo bem mais sólido e boa noção da capacidade tecnológica, empreendedores do Vale do Silício transformam o encantamento que têm pelos bits em plataformas multimídia bilionárias.
Eu, particularmente, também cultivo admirações distintas, das mais variadas áreas do conhecimento. Encontro na vastidão das estrelas um bom motivo para ficar olhando para o céu por alguns minutos, como um “tonto” — adjetivo utilizado por quem me advertiu. Acho beleza na voz de Johnny Cash, me delicio em meio às crônicas de Antonio Prata, encontro perspicácia nas montagens de roteiro pouco lineares de Tarantino, e até me encanto pelo aguerrido sistema defensivo do técnico Diego Simeone. Mais recentemente, notei até meu êxtase ao usar o Google Street View — afinal, como não se apaixonar por “andar” em uma rua na qual você nunca viu antes? De fato, não são poucas as coisas que me encantam, mesmo que banais para boa parcela dos tupiniquins “high tech”.
O que me deixou encantado recentemente e que me fez escrever esta crônica, entretanto, foi algo menos tecnológico e um pouco mais trivial do que de costume: o rodinho. Isso mesmo, o simples — e ignorado — objeto que auxilia qualquer lavador de louça na secagem da pia. Sem a necessidade de um pacote de dados para fazê-lo funcionar, algum conhecimento prévio para manuseá-lo, e, ainda, sem a obrigatoriedade de coordenação motora para jogar a água excessiva para o ralo, o rodinho ganhou minha atenção e encantamento. Que o objeto é deveras tolo, de baixo custo de produção ou até mesmo motivo de indiferença, eu entendo. Mas que ele é muito útil, ninguém pode negar. É disso que se trata.
Em meio aos constantes estímulos visuais e sensoriais presentes em nosso cotidiano, esquecemos do que realmente importa. Às vezes, negligenciamos uma conversa com um amigo na hora necessária, em outros casos, esquecemos o bolo no forno e temos que fingir que o pretinho do queimado no fundo deu um charme modernista à massa de baunilha amarelinha. O fato é: a notificação no celular nos faz abrir uma rede social e passar longos minutos longe da consciência racional (Tim Maia nos daria uma bronca). Mas o rodinho, ele mesmo, não deve ser esquecido por nós que fazemos de seu uso mera formalidade. Enquanto não criarem algo mais eficiente que ele para secar a pia rapidamente e com baixo custo, o rodo deverá ser defendido. Com unhas, dentes, e um pouquinho de satisfação por ouvir o som do atrito da água arrastada com a superfície da pia. Mais do que a finalização de limpeza, o rodinho é importante pelo que é em sua essência: descomplicado, acessível, útil, e discreto — ao menos até o momento que você leu este texto infame. A partir de agora, talvez você não use mais um rodinho para secar a pia sem o compromisso de refletir sobre sua efetividade.
Eu, particularmente, também cultivo admirações distintas, das mais variadas áreas do conhecimento. Encontro na vastidão das estrelas um bom motivo para ficar olhando para o céu por alguns minutos, como um “tonto” — adjetivo utilizado por quem me advertiu. Acho beleza na voz de Johnny Cash, me delicio em meio às crônicas de Antonio Prata, encontro perspicácia nas montagens de roteiro pouco lineares de Tarantino, e até me encanto pelo aguerrido sistema defensivo do técnico Diego Simeone. Mais recentemente, notei até meu êxtase ao usar o Google Street View — afinal, como não se apaixonar por “andar” em uma rua na qual você nunca viu antes? De fato, não são poucas as coisas que me encantam, mesmo que banais para boa parcela dos tupiniquins “high tech”.
O que me deixou encantado recentemente e que me fez escrever esta crônica, entretanto, foi algo menos tecnológico e um pouco mais trivial do que de costume: o rodinho. Isso mesmo, o simples — e ignorado — objeto que auxilia qualquer lavador de louça na secagem da pia. Sem a necessidade de um pacote de dados para fazê-lo funcionar, algum conhecimento prévio para manuseá-lo, e, ainda, sem a obrigatoriedade de coordenação motora para jogar a água excessiva para o ralo, o rodinho ganhou minha atenção e encantamento. Que o objeto é deveras tolo, de baixo custo de produção ou até mesmo motivo de indiferença, eu entendo. Mas que ele é muito útil, ninguém pode negar. É disso que se trata.
Em meio aos constantes estímulos visuais e sensoriais presentes em nosso cotidiano, esquecemos do que realmente importa. Às vezes, negligenciamos uma conversa com um amigo na hora necessária, em outros casos, esquecemos o bolo no forno e temos que fingir que o pretinho do queimado no fundo deu um charme modernista à massa de baunilha amarelinha. O fato é: a notificação no celular nos faz abrir uma rede social e passar longos minutos longe da consciência racional (Tim Maia nos daria uma bronca). Mas o rodinho, ele mesmo, não deve ser esquecido por nós que fazemos de seu uso mera formalidade. Enquanto não criarem algo mais eficiente que ele para secar a pia rapidamente e com baixo custo, o rodo deverá ser defendido. Com unhas, dentes, e um pouquinho de satisfação por ouvir o som do atrito da água arrastada com a superfície da pia. Mais do que a finalização de limpeza, o rodinho é importante pelo que é em sua essência: descomplicado, acessível, útil, e discreto — ao menos até o momento que você leu este texto infame. A partir de agora, talvez você não use mais um rodinho para secar a pia sem o compromisso de refletir sobre sua efetividade.

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