Recostados os braços e qualquer resquício de altivez numa cadeira capenga de bar, ele bebia. Bebia bastante, enquanto pensava na briga que tivera com o irmão dias antes. Pensar no passado era o que ele mais fazia, na verdade. E não era por qualquer princípio poético ou tentativa imediata de remissão. Pensava no passado porque gostava.
Era encantado pelos verbos no pretérito sem nem mesmo saber o que diabos significava pretérito. Mergulhava em lembranças porque era a única possibilidade de realmente sentir alguma coisa em sua integralidade, mesmo que o sentimento fosse a saudade dilacerante. Já que era impossível nutrir alguma paixão pelo porvir e nem mesmo havia como captar o tempo presente nas mãos — porque um milissegundo depois de pensar em algo tudo já vira passado —, agarrava o pretérito com a força que podia. Com os lábios mais soltos pela bebida, entoava o refrão da música no bar, sempre com um verso de atraso.
Gostava dos tempos antigos em que ia à loteria e ganhava pelo menos na Quadra, porque aí o fim de semana estava garantido. Adorava quando a família tinha alguma união e não brigava como se o conflito fosse premissa. Amava também quando podia abraçar a avó e horas depois comer um bolo de fubá que ela mesma preparara.
Um amigo mais letrado havia lhe dito que ficar nessas de passado só trazia dor pro coração, afinal, já tinha lido isso em algum livro de poesia. Mas ele não concordava muito. Se as lembranças eram sinal de dor, não queria analgésico algum. Gostava de pensar, pensar e pensar no passado. Às vezes tais reflexões traziam algum ensinamento, e até por isso ele decidiu que iria pedir perdão ao irmão. Não aguentou pensar que poderia perdê-lo depois de tudo o que já haviam passado alguns anos antes, com a morte da mãe.
Depois de mais dois goles secos no copo, decidiu ir embora pra casa. Mas antes pediu uma garrafa de outra marca — era a que costumava degustar com o irmão num passado distante e seria com ela que brindaria no dia seguinte, ao encontrá-lo para lhe pedir perdão.
Toda e qualquer mágoa ficara no passado.

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