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Asas são para voar


A mãe tinha orgulho da filha que havia criado. Gostava de dizer às amigas que sua menina era dona de asas, daquelas capazes de sobrevoar o mundo — uma retórica clichê de toda mãe que se preze, convenhamos. “Vai estudar em Londres por dois anos”, adiantava sempre que houvesse oportunidade e encontrasse alguém que ainda não soubesse.

No dia da viagem da filha, partida que a mãe julgava breve, era possível agarrar as emoções no ar. A matriarca embargava a voz a cada quilômetro vencido até o aeroporto. O pai sentia o mesmo desconforto da esposa, porém, era mais contido. O peito queimava, e de tanto aperto, ele já não sabia mais se era emoção ou infarto.


A voz seca que vinha dos alto-falantes foi clara: “embarque imediato para a cidade de Londres”. Mãe e filha então se abraçaram por um longo tempo, como a ocasião pedia. É muito menos doloroso quando nos despedimos de alguém e não sabemos que aquele abraço será o último.


Além das asas que a mãe sempre falou que a filha tinha, a menina também criou raízes do outro lado do oceano — dois anos, término do curso; três primaveras, um emprego estabilizado e casamento marcado na Terra da Rainha. A genitora sempre perguntava à sua menina quando ela retornaria. “No próximo ano, mãe, sem falta”.


Como qualquer pessoa ao final da vida, a matriarca também precisou fazer sua viagem particular, alguns meses depois. O voo foi para bem longe, sem possibilidade de retorno. Assim como havia feito sua filha. 


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