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Mostrando postagens de 2017

Policarpo, o estrangeiro e o Natal

Policarpo Quaresma é o reflexo exacerbado do patriotismo, da preservação dos costumes brasileiros e da imutabilidade de tudo aquilo que acha correto. O personagem do romance do escritor Lima Barreto é um sonhador do fortalecimento da cultura nacional e totalmente averso ao “estrangeirismo” desmedido. O comportamento de Policarpo contrasta com a disruptividade que o movimento literário de Barreto traz à literatura brasileira, o pré-modernismo. Apesar das descrições do caráter de Quaresma mais se encaixarem nos muitos retrógrados que hoje em dia se intitulam “cidadãos de bem”, o personagem do livro é um homem bom, talvez com dificuldades ao lidar consigo próprio. Suas convicções, no entanto, lhe traem, com aquilo que mais acreditou, as pessoas. Em uma das minhas andanças por aí, conversava com um colega sobre trivialidades, depois o papo descambou para o momento político-econômico, até começarmos a falar da famigerada Copa do Mundo. O prosear ia de vento em popa, até que uma palavra ...

Cadê a criatividade?

Dentro das cavernas o homem primitivo usava fragmentos de óxido de ferro e sangue para marcar nas paredes das grutas os perigos que teria de enfrentar. Sem saber que milhares de anos depois suas marcações teriam valor histórico e ganhariam uma nomenclatura científica, ia adicionando silhuetas de bois, lanças, pessoas, e quando lhe faltava recurso motor ou criativo para desenhar algo, riscava símbolos que até hoje são incompreensíveis para os estudiosos da arte rupestre. No Rio de Janeiro e já no Século 19, Machado de Assis não precisou riscar as paredes de sua casa (até onde se sabe) para criar Cotrim, Brás Cubas, Capitu ou até mesmo Rubião. Não há evidências concretas de seu processo criativo ou até mesmo dos embargos mentais que sofria ao escrever suas obras. Talvez tomasse um café, desse uma ajeitada no pince-nez e nada mais. A criatividade, definida como inventividade, capacidade de inovar, só decide tomar conta dos neurônios como e quando lhe dá na telha. É sedutora quando ...

Obrigado, Bahia

Foi nesse arretado pedaço da Região Nordeste que eu nasci. Ainda bem pequeno, corria entre os capins grandes e verdes dos roçados de Monte Santo, agreste baiano. Sentia o ar puro de um lugar isolado dos grandes centros e ouvia os passarinhos cantarem sua mais singela melodia. Com a migração dos nordestinos para São Paulo em alta, no início dos anos 2000, troquei a vida no campo pela da cidade. Desembarquei na (ainda) terra da garoa e me vi atordoado​ com tanto barulho e pessoas andando a passos largos, pra lá e pra cá. O encanto pelas diferenças, no entanto, sempre me acompanhou desde pequeno. Apesar de tudo muito novo, o solo era bem fértil para centenas de novas experiências e histórias que estariam por vir. Estou construindo minha vida em São Paulo desde então, um lugar no qual digo que amo, assim como as pessoas que compõem esse estado expoente do Brasil.  A saudade da terra e das pessoas que deixei para trás me ajudam a encarar as dificuldades que terei de enfrenta...

Um quase exílio

Minha terra tem um futuro, Que temo como será; Os nomes, que por aqui permeiam, Não passam confiança como antes já. Nosso Planalto tem mais estrelas, Nessas várzeas mais delatores, Nossos títulos não têm mais vida, Nosso futuro de mais horrores. Em cismar – sozinho – à noite – Mais notícias tento buscar; Minha terra tem estadistas, Os quais alguém delatará. Minha terra preza por primores, Que tais não vejo mais alcançar; Em cismar – sozinho – à noite – Mais notícias tento buscar; Minha terra tem estadistas, Os quais alguém delatará. Não permita Deus que eu sofra, Sem que no melhor possa acreditar; Sem que eu tente vencer os horrores Que por aqui não parecem acabar; Sem qu'inda aviste peças do jogo, Em que em conjunto não possam tramar. Desculpe, Gonçalves Dias. Sei que quando a Canção do Exílio  você escreveu, o nacionalismo era forte e a necessidade de se libertar das amarras portuguesas evidente. Sua busca poética pela valorização de nossas riquezas naturais é histórica. Já c...

Alguns e outros

Miranda não titubeia quando o despertador toca. Em um só movimento está sentado na cama colocando o relógio decênio que ganhou da esposa - ainda dormindo a seu lado - quando ficaram noivos. O rapaz de um metro e oitenta nunca demora a tomar coragem e ficar de pé para mais um dia de trabalho. O ofício, que fica a pouco mais de uma hora de sua casa, ainda lhe traz certa satisfação. Já é motorista de ônibus há vinte e um anos. Enfrenta a rotina das  fechadas dos carros e ouve a melodia das buzinas de segunda a sábado. Não é daqueles reclamões do trânsito. Eliel, que cultiva o amor pelas ferrovias assim como pelo bigode, também é responsável por carregar algumas centenas de pessoas pelos trilhos da capital paulista por cinco dias na semana. Ao contrário de Miranda, não gosta mais do que faz e só tolera a profissão pelo desejo da aposentadoria, já que não quer arriscar procurar um novo emprego com uma idade tão avançada como a sua. É hora de pensar no repouso, garante para a mulher...